A ETERNA CRISE DA DRAMATURGIA
Por Felipe Martins*
É comum, hoje em dia, ouvirmos ou lermos nos jornais, palestras, artigos e "rodas de butiquim" a velha máxima de que a dramaturgia brasileira atravessa sua maior crise. Contudo, além de ser uma expressão muito proferida é extremamente mal embasada e entendida.
Se considerarmos que o teatro brasileiro se consolida apenas no século XX, podemos afirmar que sua dramaturgia recente ainda tateia em busca de uma qualidade, que tem se mostrado vibrante. Para aqueles que vão contestar a minha idéia de dramaturgia recente, basta lembrar que além de Martins Pena e Arthur Azevedo (falo de autores significativos), pouco ou nada se fez de dramaturgia antes do século XX (Qorpo Santo talvez valha pela singularidade de estilo).
Entendo que a dramaturgia brasileira sempre andou em relativa crise, minimizada pela efervescência cultural causada pela ditadura militar no Brasil, que produziu arte de inegável qualidade, claro que as custas da repressão cultural e política. Antes de mais nada, é preciso lembrar que a resistência para ser eficiente, sempre deve ser extremamente criativa, e é. Mas a evocação da idéia de crise na dramaturgia nacional se deve, principalmente, à pobreza dos textos escritos de 1990 até hoje. E de fato pouca coisa salva. Centenas de autores colocam à disposição dos grupos seus textos (facilitados pela conveniência da internet), e praticamente imploram para ser encenados.
Muitos pesquisadores afirmam que a falta de qualidade dos textos é causada pela valorização do papel do encenador e do diretor, a partir da década de 1970, que ofuscaram os dramaturgos, quando não os próprios atores, que com sua imagem difundida pela televisão tornam-se verdadeiramente o centro da atenção do público.
Pode-se alegar, também, a falta de apoio aos novos dramaturgos para expor seus trabalhos, como concursos de dramaturgia e incentivos aos escritores. Bons trabalhos existem. O problema é encontrá-los.
Também os novos dramaturgos apostam em textos baseados no mesmo arroz e feijão de sempre, ou seja, numa estrutura dramática já clássica: apresentação das personagens, apresentação do conflito, clímax, desfecho. Escrever assim, é definitivamente um trabalho difícil. Como afirma Macksen Luiz:
A dramaturgia de base literária, na qual a dramática segue estruturação narrativa linear, tem se mostrado menos consistente. Os concursos de dramaturgia oficiais revelam quadro assustador: produção volumosa, mas medíocre. Essa produção que deságua nos concursos parece concentrar livres atiradores que, sem técnica ou capacidade inventiva, produzem pastiches de Nelson Rodrigues às dezenas, requentam temas regionalistas e imaginam um ''teatro político'' sem contexto, quando não reduzem a diálogos primários aquilo que imaginam ser a estrutura de um texto teatral. (Extraído de http://artescenicas.blogspot.com/2003/01/por-onde-anda-nova-dramaturgia-projeto.html)
Diante dessa devassa de porcarias que os grupos encontram, acabam optando pelo caminho mais fácil: montar um texto clássico. Quando não o fazem por Shakespeare (Sonho de uma noite de Verão e Romeu e Julieta, me dão calafrios só de ouvir falar em "nova montagem"), resvalam no teatro político das décadas de 1960 à 1980, com a maior quantidade de textos de qualidade e fácil acesso. Ou ainda, podem optar por escrever seus textos, por ora caindo, invariavelmente, nos besteiróis que inundam os teatros Brasil afora.
Escrever os próprios textos, e não buscá-los prontos, é o aceno de uma tendência. Grupos e Companhias de prestigio mostraram que isso, aliado à uma pesquisa cênica e literária séria, é garantia de um bom trabalho. O Teatro da Vertigem usa desse recurso. A construção se inicia no trabalho coletivo com colaborações de todos no texto (não confundam com textos ou direção coletiva, onde um destrói o trabalho do outro, aqui ainda há a hierarquia teatral), mas quem tece o texto objetivo final é um dramaturgo.
Com isso afirmo que a dramaturgia brasileira sim, pode estar enfrentando uma crise, mas ela é histórica. Da mesma forma que hoje se escreve muita coisa ruim, anteriormente também se escreveu. Mas trabalhos como os do Teatro da Vertigem, do Grupo Galpão, e obras como as marteladas de Mário Bortolotto (mais recente, impossível), nos mostram que a boa dramaturgia resiste, como sempre resistiu. Falta-nos a sensibilidade para encontrá-la.
*Felipe Martins é ator do grupo Isso & Ócio, Arte-Educador e cursa o 4º ano de Pedagogia na FFC/UNESP de Marília.
Para Ilustrar:

Apocalipse 1,11, Teatro da Vertigem - trabalho de pesquisa dos atores e direção que resultou no texto final de Fernando Bonassi. Extraído de
www.muito.com.br, tem outras excelentes fotos e vídeos para conferir o trabalho do Vertigem.